Elas que lutem: os obstáculos para o empreendedorismo feminino

Illustration of a woman carrying a briefcase stepping over a gap in a staircase with the help of a hand

O empreendedorismo feminino anda a todo vapor no Brasil e no mundo. De acordo com uma pesquisa conduzida pelo IBGE, há mais de 9 milhões de mulheres no comando de negócios no Brasil. Já nos EUA, 42% de todos os negócios são liderados por mulheres, um número que cresce duas vezes mais que a quantidade de negócios como um todo no país.

Por que o empreendedorismo feminino teve um boom tão significativo nos últimos anos? É fácil responder essa: porque nós, mulheres, somos maravilhosas em tudo que fazemos.

Tá, essa não é a explicação oficial, mas não tem como negar que acompanhar a expansão do empreendedorismo feminino é incrível. Fico emocionada de ver tantas mulheres talentosas, com ideias inovadoras, à frente de empresas igualmente impressionantes.

É muito fácil, no entanto, se deixar levar pela sensação de que os ventos estão mudando. Apesar de as mulheres empreendedoras cada vez mais terem a oportunidade de investir em seus sonhos, infelizmente, o cenário ainda é bastante complicado para muitas de nós. Inclusive, a pandemia veio para evidenciar que, na nossa corrida pela equidade de gênero, a linha de chegada ainda está longe.


Você tem uma ideia de negócios?

Comece o seu teste grátis de 14 dias da Shopify hoje mesmo, sem precisar de cartão de crédito!

Aprendemos a não confiar em mulheres empreendedoras

De início, o preconceito de gênero não parecia tão óbvio para Gail Goodman. Em 2015, a CEO fundadora da Constant Contact vendeu a empresa por US$1,1 bilhão. Gail teve dificuldade de convencer os investidores a comprarem o negócio, mas ela imaginou que o problema era a falta de experiência dela.

Ao levantar fundos para um novo empreendimento, a Pepperlane — um negócio que ajuda mães a abrirem negócios de casa —, Gail já era uma empreendedora bem mais cascuda. “Eu também faço parte do quadro de diretores da Shopify”, ela explicou. “Não sou uma criança.”

Apesar de toda a experiência nas costas, Gail enfrentou a mesma resistência de antes com os investidores.

Mulheres passam por um crivo muito mais minucioso do que homens para vender suas ideias. Isso se deve a uma concepção mal-informada de que investir em mulheres é um risco.

Até mesmo quando tentam desenvolver um negócio de impacto social, as mulheres têm bem menos acesso a investimentos, apesar de estarem à frente de 44% dos negócios.

Os dados de um estudo divulgado pelo 2º Mapa de Negócios de Impacto Social + Ambiental apontam que, entre os negócios criados por mulheres ou que têm uma maioria de mulheres entre os sócios, somente 25% tiveram sucesso em obter investimentos. Para as empresas criadas por homens ou com uma maioria de homens, a história é um pouco diferente: 55% tiveram acesso a investimentos.

Até 2018, apenas 14% dos parceiros de investimento em empresas de capital de risco nos EUA eram mulheres. Essa porcentagem tão baixa talvez explique porque somente 2,3% de fundos advindos de fontes de capital de risco foram direcionados a negócios liderados por mulheres nos EUA em 2019 (fonte em inglês aqui).

Isso significa que os investimentos em novos negócios ainda são majoritariamente distribuídos por homens, que têm receio de apostar no empreendedorismo feminino.

As mulheres são ensinadas a evitar riscos

Outro fator que não contribui para o aumento de investimentos em mulheres empreendedoras é que muitas delas sequer buscam algum tipo de investimento.

Ao longo dos séculos, construímos expectativas sociais que exigem uma postura contida das mulheres, enquanto os homens ganham louros por serem corajosos. Somos ensinadas a ter mais cautela e a nos arriscarmos menos.

Em termos de finanças, essa aversão a riscos contribuiu para que mulheres se tornassem mais propensas a correr atrás de investimentos mais modestos, ou a nem correrem atrás de investimento.

De acordo com a consultora financeira Isabela Fontanella, uma grande parte das mulheres abre micronegócios — empreendimentos que são vistos como menos arriscados, mas que não encontram tantas linhas de crédito no mercado.

Pode ser mesmo que essas sejam as razões para a menor busca por investimentos por parte de mulheres. No entanto, na minha jornada como mulher empreendedora, uma das maiores desvantagens que tive que enfrentar — e posso afirmar que minhas amigas empreendedoras também — foi a minha confiança.

O peso emocional de ser mulher

illustration of a woman holding a barbell above her head with weights that represent different responsibilities like work and parenting

Quando crescemos acreditando que temos um caminho definido a seguir, qualquer desvio de trajeto pode nos fazer questionar: será que estou fazendo a coisa certa?

Dentro do construto social heteronormativo de família, o homem ainda é visto como o provedor, e a mulher como cuidadora. Ainda que esses “papéis” venham sendo cada vez mais desmantelados, essa visão engessada ainda nos faz sentir culpadas por não seguir exatamente o mesmo caminho que tantas mulheres antes de nós trilharam.

Essa visão engessada faz com que, diante de qualquer crise, o fardo de abrir mão do trabalho e da carreira em prol da família recaia com mais frequência sobre a mulher.

Soma-se a isso o estigma de não ser capaz de aliar a vida profissional com o papel de mãe, temos diante de nós um problema sistêmico. Por um lado, as empresas têm um discurso acolhedor, mas poucas na prática implementam medidas que tragam mais conforto e segurança às funcionárias que optam por ter filhos. Por outro, a sociedade (e aqui incluímos familiares e amigos) não hesita em julgar mulheres que tentam se dividir entre trabalho e família.

Pensando especificamente no empreendedorismo feminino, Isabela Fontanella aponta uma dificuldade adicional que ela percebe em suas clientes:

"Mulheres tendem a dar mais atenção financeira à família que a si próprias, o que acaba minando negócios e até mesmo o planejamento delas para o futuro, como a aposentadoria."

As mulheres que escolhem não ter filhos tampouco escapam do escrutínio; pelo contrário, costumam ser pressionadas de todos os lados — por outras mulheres, inclusive — a se "conformar" ao que historicamente é esperado delas.

O resultado não poderia ser outro: uma sensação de fracasso em várias esferas de nossas vidas.

O impacto da pandemia para o empreendedorismo feminino

Diante do desafio de conciliar o trabalho remoto, o isolamento social e o cuidado com dependentes (filhos, parentes idosos e outros familiares), a pandemia tornou ainda mais distante o caminho para a equidade de gênero.

O impacto da pandemia no empreendedorismo feminino se vê em números: os dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) apontam que, no terceiro trimestre de 2020, a parcela de mulheres atuantes no mercado de trabalho foi de 45,8%. Não víamos um percentual tão baixo desde 1990, quando o Ipea acusou uma presença feminina de 44,2%.

A segregação ocupacional também foi determinante na maior saída de mulheres do mercado de trabalho. Segmentos em que as mulheres estão mais presentes foram amplamente afetados pela pandemia: o setor de educação, saúde e serviços sociais sofreu uma perda de 33,4% da população em atividade, sendo que 76,4% dos profissionais desse setor são mulheres.

Dentro de um cenário de crise mundial, ainda mais grave no Brasil, não podemos perder de vista que o investimento no empreendedorismo feminino continua a ter grande relevância em diversas frentes.

Mulheres empreendedoras pensam em mulheres

Um benefício essencial do empreendedorismo feminino é que negócios liderados por mulheres tendem a considerar problemas e dificuldades enfrentados por mulheres tanto ao gerir suas empresas quanto na hora de desenvolver produtos e serviços.

Uma questão de oportunidade

Tendo que praticamente se romper ao meio para equilibrar vida profissional e pessoal, o sonho de empreender ainda é distante para muitas mulheres pelo simples fato de que elas têm acesso mais restrito a cargos de liderança que oferecem melhores salários. O empreendedorismo feminino e a abertura de mais negócios liderados por mulheres ajudam a reduzir essa discrepância nas oportunidades oferecidas.

De acordo com os dados apresentados no Índice de Igualdade de Gênero (GEI) de 2020, empresas que têm uma mulher como CEO apresentaram mais mulheres em cargos de gerência do que empresas lideradas por homens. Além disso, em negócios comandados por uma CEO, as mulheres têm presença maior entre 10% dos funcionários mais bem pagos e nos cargos que geram lucros para a empresa.

O Índice de Igualdade de Gênero (GEI) é uma análise detalhada da presença e da liderança feminina em empresas proeminentes de diversos setores, realizada pela Bloomberg. Elaborado anualmente, o GEI contou com dados fornecidos por 325 empresas globais espalhadas por 42 países. Mais informações sobre o relatório estão disponíveis em inglês aqui.

Mais empatia no ambiente de trabalho

Illustration of a woman's face bisected with the top of the head on the right and the bottom on the left

Ao contrário das empresas que veem os papéis de mãe e de CEO como uma dicotomia, Gail os enxerga como uma vantagem.

“Eu trago mais empatia para a conversa. Eu trago uma visão mais equilibrada do mundo. Estou à frente de uma organização que é voltada para os funcionários e tem mais compaixão”, conta Gail.

E mulheres empreendedoras, no geral, implementam ações que fomentam o equilíbrio entre trabalho e vida pessoal. Em uma pesquisa feita nos EUA e disponível em inglês, 64% das mulheres entrevistadas afirmaram oferecer benefícios familiares, apesar de serem custos altos para pequenos negócios.

Inclusão das mulheres na vida financeira

Isabela Fontanella conta que, um tempo atrás, estava traçando uma nova estratégia de marketing para sua consultoria financeira que envolvia definir um público-alvo mais específico. Ela relata que tinha uma grande vontade de trabalhar exclusivamente com mulheres empreendedoras, mas que não sabia se era viável porque a maior parcela dos clientes era composta por homens.

Em uma rápida pesquisa no Instagram por empresas e influenciadores da área financeira, Isabela conseguiu perceber o que os resultados tinham em comum: eram quase todos homens.

O experimento no Instagram era denotativo de algo que ela já sabia, mas ainda não sabia como aplicar à empresa dela: o nicho de finanças tem um público predominantemente masculino porque o conteúdo e os serviços desse segmento são todos oferecidos por homens que falam com outros homens.

Foi aí que Isabela percebeu que nenhuma dessas empresas estava pensando nas necessidades específicas das mulheres. O que a motivou a oferecer consultoria financeira especializada para mulheres? A falta de acesso à esfera financeira, enfrentada pelas mulheres por muitos séculos:

“As mulheres foram historicamente excluídas da vida financeira das famílias. Para se ter ideia, foi só em 1962 que as mulheres puderam ter direito a abrir conta bancária sem a assinatura do marido. Isso faz com que haja um abismo de conhecimento e até de confiança na questão de finanças e investimentos.”

Transformando a vida de mulheres

O empreendedorismo feminino tem um ponto de vantagem que hoje parece óbvio, mas que, por muitos anos, não foi nem cogitado: quem melhor para pensar em soluções para mulheres do que… mulheres?

Emily Ewell, engenheira química de formação, morava em Boston em 2016, quando a vida profissional a levou a pesquisar o mercado feminino norte-americano. Mais especificamente, Emily se interessou em desenvolver calcinhas que absorvessem o fluxo menstrual de forma eficiente, dispensando o uso de absorventes internos ou coletores.

Junto à sócia Maria Eduarda Camargo (ou Duda, como prefere ser chamada), a ideia foi levada para o mercado brasileiro, onde acreditavam que o produto teria mais espaço.

“As marcas de produtos menstruais só falavam sobre vazamento e backup. Foi aí que pensei que as calcinhas absorventes seriam uma grande evolução no Brasil.”

Foi assim que surgiu a Pantys, a primeira marca de calcinhas absorventes do Brasil. Desde então, a Pantys decolou: além do grande sucesso das calcinhas absorventes, a empresa teve a iniciativa de desenvolver uma série de produtos para mulheres, como sutiãs absorventes para amamentação e uma linha praia menstrual, criada em parceria com a AHLMA.

Apesar de todo o sucesso que a marca obteve, o que mais deixa Emily e Duda felizes é perceber que estão transformando a vida das mulheres. “Recebemos tantas mensagens de clientes dizendo que o nosso produto revolucionou suas vidas. Queremos crescer para ser uma marca querida, conhecida por toda mulher”, diz Emily.

Não satisfeitas em revolucionar o mercado de produtos menstruais, a Pantys fez questão de se diferenciar também em suas estratégias de comunicação. Enquanto muitas marcas no Brasil se fixam em uma padronização do corpo feminino, a Pantys optou por desenvolver campanhas com mulheres e corpos reais, com o intuito de não alimentar uma indústria que há décadas corrói a autoimagem das mulheres.

💡 Dica de leitura: conheça a história de sucesso da Pantys

Em busca da equidade de gênero

Illustration of a woman hunched over on her knees with a large equal symbol resting on her back

É equivocada a ideia de que criar mais oportunidades para mulheres é uma ação excludente; muito pelo contrário, o empreendedorismo feminino traz oportunidades para todas as pessoas.

Gail Goodman defende que existem pouquíssimos jogos de soma zero no mundo dos negócios. “Quanto mais incentivarmos o empreendedorismo feminino, teremos mais empregos locais e desenvolveremos sistemas de ensino melhores que, por sua vez, criarão mais empreendedores,” afirma Gail.

Entretanto, Gail lembra que nós, individualmente, não devemos tomar para nós a responsabilidade de mudar o mundo para todas as mulheres. No entanto, nós podemos, sim, contribuir com a criação de uma cultura e uma comunidade de mulheres que apoiam mulheres, tornando o caminho do empreendedorismo feminino menos irregular e deixando as gerações futuras mais próximas da linha de chegada.

A Shopify tem orgulho de ser um tijolinho nessa longa estrada ao ser a plataforma de e-commerce escolhida por muitas mulheres do Brasil e do mundo. Além da Pantys, contamos com outras empresas incríveis que são lideradas por mulheres na Shopify, como a Simple Organic, a Insecta Shoes, a PEITA e a Goya Lopes. Se você quer se juntar a esse elenco de mulheres maravilhosas, que tal começar por aqui?

Inspirado no texto em inglês de Dayna White

Ilustrações por Hanna Barczyk

Perguntas frequentes sobre empreendedorismo feminino

O que é empreendedorismo feminino?

O empreendedorismo feminino engloba iniciativas empreendedoras idealizadas ou lideradas por mulheres. Desde mulheres que atuam como autônomas até empresas de grande porte, qualquer negócio pode se enquadrar no empreendedorismo feminino, contanto que tenha ao menos uma mulher como proprietária, sócia ou em qualquer cargo de autoridade.

Quais os desafios do empreendedorismo feminino?

Alguns dos desafios do empreendedorismo feminino são: a dificuldade de encontrar investimentos, a discriminação enfrentada, a pressão de conciliar a vida profissional com a profissional e a falta de amparo para assumir riscos e empreender.

Qual é a importância do empreendedorismo feminino?

O empreendedorismo feminino dá mais visibilidade à mulher empreendedora, gera mais oportunidades de trabalho para todos e incentiva a concretização de ideias e soluções inovadoras que, muitas vezes, atendem às necessidades de outras mulheres.

Como apoiar o empreendedorismo feminino?

Como consumidor, você pode apoiar empresas comandadas por mulheres comprando os produtos e divulgando o trabalho delas. Como investidor, você pode implementar medidas em sua organização para garantir que mulheres empreendedoras recebam investimentos.

Which method is right for you?Sobre a autora

Bianca Saburi é copywriter e escritora. Adora aprender mais sobre marketing e e-commerce, além de ser apaixonada por livros e cachorros.

Você tem dúvidas sobre a Shopify?

Entre em contato a nossa Central de ajuda

Tópicos: